Recentemente ouvi um depoimento de Eduardo Marinho que desmonta, com brutal honestidade, uma das crenças mais repetidas da nossa cultura: a ideia de que o objetivo da vida é enriquecer.
Disseram a ele que o propósito da existência é “ficar rico”, “constituir patrimônio”, “ganhar dinheiro”. Ele rejeita isso como insuficiente. E não por romantismo. Por lógica simples: você morre e tudo fica.
Se o patrimônio permanece e você parte, então ele nunca foi o sentido. Foi, no máximo, ferramenta.
O Sentido Natural da Vida: A Morte
Eduardo provoca uma inversão desconfortável: o único destino inevitável é a morte. A pergunta real não é “como acumular mais?”, mas sim:
Qual proveito você vai dar a essa viagem entre nascer e morrer?
Se existe algum significado além do biológico, ele não está no saldo bancário. Está na postura interna:
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nas escolhas
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nos valores
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na visão de mundo
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nos sentimentos cultivados
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nos objetivos que você decide perseguir
E aqui surge uma pergunta incômoda:
Os seus valores são seus ou foram implantados pelas indústrias sociais?
Valores Implantados vs. Valores Escolhidos
A crítica é direta: somos programados para competir de forma implacável.
O sistema educacional reforça isso.
A mídia comercial amplifica.
Publicidade não vende apenas produtos vende identidade, pertencimento e status. Utiliza psicologia do inconsciente para criar desejos artificiais. A lógica é simples: manter você correndo atrás de necessidades que não são realmente suas.
Enquanto isso, as necessidades internas ficam negligenciadas.
Não é coincidência que o consumo de antidepressivos seja massivo. Uma vida centrada exclusivamente no material tende ao esvaziamento.
“Tudo o Que Eu Puder Levar”
Na última conversa com o pai, ele respondeu que queria “tudo o que pudesse levar”.
Mas o que se leva?
Não é dinheiro.
Não é privilégio.
Não é reconhecimento social.
O que se leva são experiências internalizadas. A consciência do que foi feito. A coerência entre valores e ação. A sensação de ter vivido de forma íntegra.
Ele admite: não sabia exatamente o que queria. Mas estava aprendendo o que não queria uma vida vazia, mesmo que confortável.
Justiça Como Sentido
Ele reconhece que talvez não veja um mundo justo. Ainda assim, trabalha por ele. Porque, caso contrário, sua própria vida perderia sentido.
Há um ponto central aqui:
Se a sua existência beneficia apenas você, o significado é frágil.
Se beneficia o entorno, há realização.
Não se trata de altruísmo performático. Trata-se de coerência interna.
O Constrangimento do Privilégio
Ele afirma não conseguir usufruir de privilégios diante da miséria. Considera vergonhoso. Essa posição confronta diretamente o modelo dominante, que incentiva vantagem individual acima de tudo.
O discurso padrão é:
“Vença.”
“Supere.”
“Consuma.”
“Destaque-se.”
Mas vencer para quê? E às custas de quem?
A Pergunta Que Fica
Se você remover dinheiro, conforto e status da equação, o que sobra como propósito?
Se tudo que você acumulou ficar para trás, o que resta de você?
Talvez a resposta não esteja em descobrir imediatamente o que quer da vida. Talvez o primeiro passo seja mais honesto:
Identificar claramente o que você não aceita como sentido.
E então escolher, conscientemente, quais valores realmente merecem conduzir sua existência.
Porque no fim, a morte é certa.
O significado, não.



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