O valor do ser em uma sociedade obcecada pelo ter

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Existe uma afirmação incômoda, mas necessária: ainda não somos plenamente humanos. Somos uma promessa em construção.

Quando alguém vê uma pessoa desabrigada e isso não causa espanto, há um problema. O normal se tornou conviver com a exclusão. A maioria viola a própria consciência por conveniência. Não é falta de informação. É adaptação moral ao absurdo.

A inversão de valores

Você não se sente insuficiente porque é ruim.
Você se sente insuficiente porque não ostenta.

Roupa de marca, status, dinheiro, validação social. O critério de valor foi deslocado. O “ter” passou a definir o “ser”.

Não é admirado quem demonstra solidariedade, criatividade ou sensibilidade. É admirado quem exibe patrimônio. Essa mentalidade não surgiu por acaso. Ela é produzida, refinada e distribuída em escala industrial.

A mídia tradicional fez isso durante décadas. As redes sociais aceleraram o processo e o tornaram contínuo 24 horas por dia. O trabalho é direto no campo emocional: medo de ficar para trás, desejo de pertencimento, ansiedade por reconhecimento.

É engenharia afetiva aplicada ao consumo.

A manipulação do afeto

O sistema não precisa que você seja mau. Precisa que você esteja inseguro.

Insegurança vende.
Comparação vende.
Escassez simbólica vende.

Quando você acredita que vale pelo que possui, você se torna dependente de adquirir. E quando adquirir vira identidade, questionar o modelo vira ameaça.

O problema não é ganhar dinheiro. O problema é reduzir a dignidade humana à capacidade de consumo.

A evolução não parou

Há, porém, um ponto central: a natureza humana está em evolução permanente.

Se olharmos para trás, perceberemos avanços claros. Há 200 anos, o mundo era mais brutal, mais desigual juridicamente, mais violento estruturalmente. Hoje, apesar das contradições, existe maior sensibilidade coletiva a temas como direitos humanos, desigualdade, diversidade e justiça social.

Isso não significa que chegamos ao ideal. Significa que estamos em transição.

O momento atual é apenas um recorte histórico. Somos melhores do que fomos. E, se houver consciência crítica, podemos ser muito melhores do que somos.

A pergunta inevitável

Quando, afinal, seremos humanos?

Talvez quando a miséria for um escândalo real e não apenas um dado estatístico.
Quando a solidariedade tiver mais prestígio que o luxo.
Quando o valor do indivíduo não for medido pela etiqueta que veste.

Até lá, seguimos em processo.

E processo exige lucidez.

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